Conclusão: das narrativas que as história não conta

A História ensinada na sala de aula é pautada em uma “História verdade” o que faz com que seu ensino seja engessado em uma única forma de explicação possível. A história enquanto campo de ensino se constitui no século XIX. Seu contexto era do crescimento do nacionalismo, portanto, a História teria como “função” dar suporte para que com a formação das nações modernas fosse construída uma História geral do Brasil e as “tradições comuns”, com a ideia de criação de uma unidade, e uma nação com sentimento de pertencimento. Nesse contexto a História produzida tem como metodologia narrar a história dos grandes feitos, de personagens heroicos, que seriam os construtores da nação, e por isso mereciam ser exaltados. Essa era também uma história positivista, ou seja, traz uma ideia de progresso e o tempo é apresentado de forma linear, em suas datas e fatos, o que diz de uma perspectiva europeia, onde o tempo se apresenta de forma simplificada como uma sucessão de fatos.

A historiografia sofre mudanças significativas quase um século após, de forma a romper com essa visão factual, mudando também os seus atores. Existe, entretanto, a problemática do ensino de história levado para sala de aula que muitas vezes ainda não fez esse movimento, sendo ensinada desta forma uma História que é do século XIX, ou seja, há um “abismo” entre história feita na academia e a história ensinada no espaço escolar. Dois grandes exemplos dessa falta de diálogo é a mudança historiográfica percebida através dos textos já trabalhados de Hebe Mattos e Maraliz, ambas as autoras problematizam como os heróis na história são fruto de uma construção, e como fica claro no Texto da segunda autora uma construção muitas vezes “forçada”, no entanto a história levada para o espaço da sala de aula se baseia ainda nessas figuras assim como na factualidade daquela história feita no século XIX.

Outro ponto muito importante é pensar sobre uso da memória no Ensino de História, pois a memória, assim como a História e seu ensino, dizem de algo que foi construído e isso passa por pessoas, pessoas essas que são dotadas de características e visões especificas inclusive da história, é preciso levar em conta então, que ambas não são neutras, são construções sociais. Para pensar em seus atores o foco não pode ser único, tem que sofrer deslocamentos diversos, inclusive olhando para seus bastidores e como ele foi construído. Nos bastidores das memorias que se reproduzem como “memória oficial”, se encontram muitas vezes as memórias desses alunos e suas famílias, pois nas seleções feita por essa memória não foi algo tido como importante para ser lembrado.

Reconhecendo-as como construções estão passiveis de serem desconstruídas o tempo todo, desta forma elas não estão dadas e passam por constante transformação. Assim como a memória individual possui intencionalidades na seleção do que deve ou não ser lembrado, a memória coletiva também faz uso desse instrumento, do mesmo modo que a memória histórica que se compõe de uma seleção daquilo que, em cada tempo, é legitimado para ser lembrado, isso deve ser levado em conta pelo professor que deve levar a seus alunos essa discussão e questionamento.

A condição de lembrar e esquecer é ao algo que se constrói ao longo do tempo e sua seleção passa tanto pelas sociedades como pelos próprios indivíduos. Mais claramente perceptível ao se pensar nos objetos pessoais ou edificações que são convencionadas a serem “guardadas”, sendo salvos consequentemente da perda ou do esquecimento, isso se deve a uma intervenção de preservação de algo, ou de seus significados, isso diz de como se pretende lembrar de algo. Contudo, com a passagem do tempo, novas redes de significados vão se construindo em função daquilo que foi preservado, devido a novas experiências pessoais com relação aquele objeto. Assim, uma peça que hoje se encontra em um museu e que pertencia a alguma pessoa, não tem no museu o mesmo significado que teve na vida daquela pessoa. Ao contrário disso, ao entrar em museu esse objeto “morre de sua relação de vida” e passa a receber outro sentido perdendo sua função original, portanto, esse objeto passa por uma musealização. É preciso ir além e pensar porque esse objeto foi escolhido para ser lembrado. Além disso a reflexão sobre os porquês dessa escolha é muito importante, para se questionar a quem se interessa e qual memória foi escolhida para estar por traz dessa escolha.

A memória é um campo que se encontra em constante disputa, assim como suas seleções, ou seja, a escolha do que é lembrado ou silenciado, desta forma, o que é passível de lembrança entra num “jogo de poder”, e seu controle se dá por grupos sociais específicos e dizem respeito sempre aos processos de construção e poder. Ao entendermos que as memórias de um grupo social emergem como seleção, entenderemos também que, ao lado do que foi lembrado, muitas outras memórias foram excluídas. Pensando no ensino de História isso se aplica ao que é selecionado para ser estudado, portanto, essas operações de seleção têm como consequência a exclusão de outras temáticas, pois umas são escolhidas em detrimento de outras.

A escola como lugar de memória deve ser levada para sala de aula, e seu ensino deve promover a educação do olhar desses alunos, de forma a questionar quais são as memórias que se colocam nesses espaços. Assim, a escola deve ser um lugar aberto e disposto a fazer discussões de forma constante e não isoladas apenas em datas especificas de comemoração, como acontece no dia do índio que vira uma fantasia para crianças que são pintadas, assim como o dia da consciência negra, a fala com relação a essa temática também se restringe a uma data e é apenas nessa data que as discussões se voltam para esse assunto. A falta de discussões mais sistemáticas, para além de uma data, gera ainda mais silenciamentos, pois, a representatividade tem um grande significado para crianças e jovens que estão em fase de formação de suas identidades,

A importância do desfile da escola de samba Mangueira está então, no seu alcance, ou seja, onde a historiografia ainda não tem conseguido alcançar e espaços como os museus que apesar de estar em um processo de mudança de suas narrativas, ainda são espaços muito restrito a um tipo de público, pois muitos não se sentem representados como parte desses lugares. É incrível o aproveitamento que a escola faz desse espaço que ela ocupa para levar a esfera pública e essas pessoas “comuns” “a história que história não conta”.

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